26 de outubro de 2026

O que ficou entre nós

O que ficou entre nós

Há ausências que não cabem no silêncio.

Elas se escondem nas pequenas coisas, nos gestos que o tempo transformou em costume e que, de repente, se tornam lembranças difíceis de carregar.

Às vezes, ainda procuro um lugar atrás de alguém. Um abrigo onde pudesse me esconder do mundo, como fazia quando acreditava que certos braços eram grandes o suficiente para impedir qualquer tempestade.

Há ruas que parecem mais largas agora. Travessias que exigem uma coragem que nunca imaginei precisar. E mãos que, mesmo ausentes, ainda encontro por instinto.

Sinto falta de coisas tão pequenas que quase me envergonho de confessar.

De um sorvete que chegava sem que eu precisasse buscar. De conversas sem importância, de segredos compartilhados entre risadas, de histórias alheias que inventávamos maneiras de contar. Daquele abraço onde eu deixava descansar até os pensamentos.

Havia uma espécie de paz em não precisar saber de tudo.

Eu apenas seguia.

Confiava nos caminhos, nas escolhas, nas palavras. Fechava os olhos diante das curvas porque acreditava conhecer quem segurava o volante.

E, enquanto admirava a paisagem, não percebia quantas estradas já haviam sido escolhidas sem mim.

É estranho descobrir que algumas tempestades não chegam de fora. Nascem justamente dentro daquilo que chamávamos de abrigo.

Hoje, revisito as lembranças como quem percorre uma casa antiga. Reconheço os móveis, os cheiros, os cantos onde fui feliz. Mas encontro portas que nunca me foram abertas, gavetas que desconhecia e janelas por onde a verdade talvez tenha escapado tantas vezes sem que eu percebesse.

E me pergunto quantas coisas foram reais.

Não os gestos. Ainda consigo senti-los.

Mas aquilo que existia por trás deles.

Talvez eu tenha confundido proteção com paredes. Talvez tenha chamado de cuidado aquilo que, silenciosamente, me ensinava a não caminhar sozinha.

Fui deixando pequenas partes de mim pelo caminho. Uma opinião aqui, uma vontade ali, um sonho adiado, uma decisão entregue. Nada parecia importante demais quando acreditava que o amor era justamente essa entrega sem medidas.

Até que, um dia, procurei por mim e encontrei apenas vestígios.

Há uma crueldade particular em sentir saudade daquilo que também nos feriu.

Porque a memória não obedece à razão. Ela não separa o abraço da mentira, nem o carinho da decepção. Guarda tudo no mesmo lugar e, quando menos esperamos, abre suas portas.

Então sinto falta.

Não sei exatamente de quem.

Talvez daquele homem que existia nas manhãs tranquilas, nas mãos estendidas, nos pequenos cuidados.

Talvez da mulher que eu era quando ainda acreditava que nada precisava temer.

Ou talvez de uma história que, de tão bonita aos meus olhos, nunca me permiti ler até a última linha.

Hoje, o silêncio tem outro peso.

Não há mais ninguém à frente para esconder meus medos. Não há mãos esperando nas travessias, nem certezas emprestadas para sustentar meus passos.

E, entre tantas coisas que desapareceram, restou uma descoberta amarga: algumas pessoas nos ensinam a depender tanto de sua presença que, quando partem, levam também a confiança que tínhamos em nós mesmos.

Ainda assim, há algo que ninguém conseguiu levar.

A verdade do que senti.

Porque, se havia sombras onde eu enxergava luz, isso não torna menos verdadeiro o sol que carreguei dentro de mim.

Talvez um dia eu consiga olhar para trás sem procurar respostas. Talvez consiga atravessar uma rua sem sentir falta daquela mão. Talvez até compre meu próprio sorvete e descubra que ele continua tendo o mesmo sabor.

Mas hoje não.

Hoje ainda me perco entre o que foi vivido e o que foi escondido.

Entre a ternura das lembranças e a dureza das descobertas.

Entre a saudade de um abraço e o desejo de nunca mais precisar dele.

E há noites em que a pergunta permanece, quieta, quase sussurrada:

Será que perdi alguém que amei ou apenas descobri que nunca conheci verdadeiramente quem estava ao meu lado?

Não sei.

Só sei que, enquanto você parecia ser meu lugar seguro, eu fui deixando de ser o meu.

E agora, entre os escombros de tantas certezas, preciso encontrar o caminho de volta.

Não para onde estávamos.

Mas para onde eu me deixei.

Aurora no Escuro

23 de outubro de 2026

“Você era o meu monstro no armário.”

Eu fiquei com raiva pelo que você fez. Fiquei magoada, decepcionada.

Quando te conheci, acreditei que finalmente havia encontrado alguém diferente. Alguém que me fazia acreditar que eu poderia baixar a guarda, deixar meus medos de lado e voltar a confiar em alguém, sem receio de me machucar novamente.

Por um tempo, vivi essa tranquilidade. Sentia-me segura, protegida, como se finalmente pudesse descansar das desconfianças que a vida havia me ensinado a carregar. Mas, aos poucos, aquela paz foi dando lugar à ansiedade, à insegurança e ao medo.

Fiquei com raiva pelo que você fez. Porque, mesmo sabendo que suas escolhas poderiam me machucar, me deixar exposta, sozinha e com medo, você continuou. Fez o que quis, tomou suas decisões, escondeu suas verdades e me deixou acreditar que tudo estava bem.

E, no final, nem sequer me deu uma aula de como lidar com tudo isso. Não me ensinou a enfrentar aquilo que você mesmo estava construindo. Simplesmente me deixou diante de uma realidade que eu desconhecia, cercada de problemas que não criei e de perguntas para as quais não tenho respostas.

O mais doloroso é perceber que, enquanto eu acreditava estar protegida ao seu lado, era justamente de você que eu precisava me proteger.

Você era o meu monstro no armário.

18 de outubro de 2026

Revisão sobre Derrota


Há, sim, a derrota.

O que seria a derrota para alguém?

Algo a ser visto como fracasso? Você fracassou naquilo em que mais acreditava e, de repente, sua verdade foi — e continua sendo — questionada.

Será que não sabia?

Pois bem...

De repente, vem também o cansaço de explicar para gente burra, para gente desprovida de qualquer empatia. Gente que, na fila do entendimento, preferiu entrar na da burrice.

Tem aquela velha história de chacoalhar a árvore para que as frutas podres caiam do pé. Ou melhor, para que certas almas sebosas finalmente saiam do seu pé.

E foi algo revelador.

Espíritos imundos que se alimentam de fofocas, de palavras malditas, de julgamentos e da desgraça alheia.

Mas é a vida, né?

Como disse alguém:

“Na alegria e na dor, conhecemos a verdadeira essência dos amigos.”

Verdade. Verdadeira.

Ah, sim...

Estava descansando.

Dormi.

Hibernei.

Agora, pronta estou.

Vem...

17 de outubro de 2026

Análise do desamor

Os olhos estiveram fechados por longos anos.
A ingenuidade caminhava descalça, sem receio de pisar em algo que pudesse machucá-la. Seguia destilando amor a qualquer um que se aproximasse.
E ele chegou.
Bem de mansinho? Não. Veio como um furacão e, na emoção do bailar dos ventos, a envolveu, carregando-a para bem longe.
Longe de si mesma, tornou-se mais fácil manipulá-la, cegá-la com aquele amor que somente ela carregava dentro de si.

E ali se entregou, acreditou, sonhou.

Um amor demasiadamente grande, infinito, que, aos poucos, foi se desfazendo por inteiro.
Ainda assim, permaneceu, até cair por terra, esgotada de tanto oferecer, de tanto lutar.
A rosa se despedaçou lentamente, sem sequer perceber o quanto de si havia perdido.

Ela viu, mas não ouviu.

Acabou.

27 de agosto de 2026

Votar consciente ainda existe?

Votar consciente ainda existe?

Em tempos de eleição, uma frase volta a ser repetida como se fosse um conselho simples: “Vote consciente.” Mas, diante de tantas denúncias, falcatruas, promessas esquecidas e interesses pessoais, fica a pergunta: votar consciente ainda existe?

Será que ainda existe um candidato que realmente valha a pena? Alguém disposto a exercer um mandato pensando no povo, e não apenas no poder, nos privilégios ou na próxima eleição? Talvez exista. Mas encontrá-lo exige muito mais do eleitor do que ouvir discursos bonitos, assistir a vídeos de campanha ou acreditar em promessas feitas às vésperas da votação.

Porém, é muito fácil colocar toda a culpa nos políticos e esquecer que a corrupção não começa necessariamente depois da eleição. Muitas vezes, ela começa antes do voto.

Começa quando alguém troca sua escolha por dinheiro, combustível, material de construção, uma conta paga, uma cesta básica ou qualquer benefício momentâneo. O político que compra um voto está errado. Mas quem aceita vender também precisa reconhecer sua responsabilidade. Afinal, como exigir honestidade de quem foi escolhido por meio de uma negociação desonesta?

E o mais triste é perceber por quanto algumas pessoas entregam quatro anos de poder. Recebem algo que resolve uma necessidade de hoje — quando resolve — e entregam em troca decisões que afetarão saúde, educação, segurança, emprego, infraestrutura e o futuro de toda uma comunidade.

Depois vêm as reclamações: o político sumiu, não cumpriu o que prometeu, esqueceu o povo, não fez aquilo que deveria fazer. Mas quem vendeu seu voto também abriu mão de uma parte do direito moral de cobrar aquilo que negociou.

Voto não é favor.
Voto não é mercadoria.
Voto é responsabilidade.

Talvez ainda existam bons candidatos. Talvez existam pessoas honestas tentando entrar ou permanecer na política. Mas nenhuma democracia melhora apenas procurando políticos melhores. Também precisamos ser eleitores melhores.

Antes de perguntar quanto um candidato pode lhe dar hoje, pergunte quanto uma escolha errada poderá lhe custar durante quatro anos.

Porque algumas escolhas têm consequências.

E, como diz o velho aviso:

“Quem vende a alma para o diabo, não vai querer depois ventilador no inferno, porque não vai ter.”


20 de agosto de 2026

Quando a Bondade Encontra o Limite

Há pessoas que não se aproximam da sua bondade para acolhê-la, mas para descobrir até onde podem explorá-la.
Elas observam o quanto você suporta, quantas vezes perdoa, quanto está disposto a sacrificar e, principalmente, quanto tempo leva para dizer “chega”. Aos poucos, aquilo que você oferecia por carinho deixa de ser recebido como gesto e passa a ser tratado como obrigação.
E talvez essa seja uma das maiores crueldades contra quem tem um coração generoso: fazer essa pessoa acreditar que estabelecer limites significa ter se tornado egoísta.
Não significa.
Há um momento em que continuar cedendo deixa de ser bondade e começa a ser abandono de si mesmo. Porque quem precisa diminuir suas próprias necessidades, engolir decepções e carregar responsabilidades que não lhe pertencem para manter alguém por perto já está pagando caro demais por uma relação.
A bondade precisa de limites, porque existem pessoas que não param quando percebem que estão machucando você. Elas param apenas quando percebem que você não permitirá mais.
E aprender isso não endurece o coração.
Só fecha a porta para quem confundiu amor com permissão para abusar dele.

9 de agosto de 2026

Anulação? Porque?

E todos os dias esperamos por alguma coisa que nos faça acreditar que tudo valeu a pena.

Um gesto, uma mudança, um pouco de reconhecimento… qualquer sinal que justifique tantas renúncias, tantos silêncios e tudo aquilo que fomos deixando de nós mesmos pelo caminho.

Mas existe uma dúvida difícil de calar: até que ponto vale a pena se anular lutando por uma vida que, a qualquer momento, pode simplesmente te esmagar?

Porque lutar por algo é uma coisa. Desaparecer de si mesmo para sustentá-lo é outra.

E talvez uma das coisas mais amargas de aceitar seja perceber que passamos tanto tempo tentando salvar uma história, que esquecemos de perguntar quem estava nos salvando dentro dela.

4 de julho de 2026

É uma reflexão que convida ao respeito, em vez de dizer que só existe um jeito certo de viver a felicidade.

Dizem que felicidade mostrada estraga. Eu discordo.

A felicidade não acaba porque foi compartilhada. Ela apenas revela quem realmente se alegra por nós e quem não consegue lidar com a alegria alheia.

Cada pessoa é livre para viver como quiser. Há quem prefira preservar suas conquistas em silêncio, e isso merece respeito. Mas também há quem goste de celebrar e compartilhar seus momentos, e esse direito também deve ser respeitado.

No fim, não existe uma forma certa de ser feliz. O que existe é a liberdade de viver a própria felicidade, seja em silêncio ou diante do mundo.

28 de junho de 2026

Para se ter paz, deve haver uma guerra.

Para se ter paz, deve haver uma guerra.

Deve nada.

Na guerra, ninguém ganha. Há desgaste, há feridas que até cicatrizam, mas as marcas permanecem, assim como as lembranças amargas. Ficam a mágoa, o desrespeito e as palavras duras, aquelas que nunca podem ser recolhidas.

Depois da guerra, dificilmente existe paz. O que sobra é o medo, a angústia e uma falsa sensação de vitória, capaz de iludir por algum tempo, mas incapaz de trazer felicidade.

Ao final, pode haver mais de um ferido. E talvez o pior deles seja aquele que, por fraqueza ou esperança, não fugiu do monstro que o arrastou para a guerra.

Porque, às vezes, a maior vitória não é vencer uma batalha, mas ter ido embora antes que ela começasse.

21 de junho de 2026

Quem espalha inveja, colhe amargura.

 

"Quem vive olhando pela janela da vida dos outros, perde a oportunidade de construir a própria história." 🌻

Há pessoas que passam tanto tempo observando a vida dos outros que acabam esquecendo de viver a própria. Incomodam-se com a felicidade alheia, com as conquistas, com os sonhos realizados e até com a simples paz que alguém encontrou depois de muitas batalhas.

É curioso perceber que, muitas vezes, quem mais critica não conhece a história completa. Não viu as lágrimas escondidas, as noites mal dormidas, os medos enfrentados em silêncio, nem os inúmeros obstáculos superados pelo caminho. Enxerga apenas o resultado e, por não compreender o esforço, transforma admiração em incômodo.

Pessoas assim costumam acreditar que a felicidade do outro diminui as suas próprias chances de ser feliz. Mas a vida não funciona dessa forma. O sucesso de alguém não rouba o lugar de ninguém. O brilho de uma pessoa não apaga a luz da outra.

Enquanto alguns gastam energia julgando, criticando ou desejando que o outro fracasse, existem aqueles que seguem trabalhando, aprendendo, caindo e levantando. São esses que entendem que o tempo é precioso demais para ser desperdiçado cuidando da vida alheia.

A verdade é que cada pessoa carrega suas próprias dores, desafios e responsabilidades. Quem está ocupado construindo seus sonhos dificilmente encontra tempo para se incomodar com os sonhos dos outros.

No final, a vida sempre nos devolve aquilo que cultivamos. Quem espalha inveja colhe amargura. Quem espalha apoio colhe respeito. E quem escolhe seguir seu caminho sem olhar para trás descobre que a maior vitória não é ser melhor que alguém, mas ser melhor do que era ontem.

19 de junho de 2026

Chegue antes da dor.

Há pessoas que percebem a dor do outro e se importam. Outras enxergam apenas as próprias necessidades, os próprios desejos e as próprias frustrações. Não necessariamente porque sejam más, mas porque não desenvolveram a capacidade — ou a disposição — de olhar além de si mesmas.

Com o tempo, aprendemos que a verdadeira medida de um vínculo não está nos dias de festa, nas fotografias sorridentes ou nas palavras bonitas. Ela aparece quando a vida aperta, quando o cansaço chega, quando a doença bate à porta, quando o coração está ferido. É nesse momento que os discursos desaparecem e ficam apenas as atitudes.

Na alegria, muitos se aproximam porque compartilhar bons momentos é fácil. Na tristeza, permanecem os que escolhem ficar quando não há benefício algum em permanecer. Os que seguram a mão, escutam o silêncio, fazem companhia na madrugada, lembram do remédio, oferecem um ombro e, às vezes, apenas ficam presentes.

A dor também ensina uma lição difícil: nem sempre quem recebe cuidado entende o valor desse cuidado. E isso pode machucar profundamente quem sempre esteve disposto a amparar.
Mas há algo que o tempo revela: quem cuida com sinceridade não perde sua essência por causa da ingratidão dos outros. Perde apenas a ilusão de que todos amam da mesma forma que ama.
E talvez seja por isso que os poucos que permanecem tenham tanto valor. Porque, quando a tempestade passa, percebemos que eram eles que realmente importavam. Não os muitos que chegaram na festa, mas os poucos que ficaram para ajudar a apagar as luzes e arrumar a casa depois da dor.

❤️ "Na abundância, somos cercados por muitos. Na escassez, somos revelados aos poucos. E são esses poucos que chamamos de verdadeiros."